O Mundo Surreal de Snyder
Já assistiu 300? E Watchmen? Não foi ainda ver Sucker Punch? Se suas respostas foram sim, sim e “Fui, caramba, não me incomoda mais”, parabéns, você ganhou um texto no Bacon Frito. Tá muito fácil atualmente criticar o diretor dos três filmes, Zack Snyder, e não falo isso pelas qualidades ou defeitos dele, mas por seu cinema ser: A) Fetichista B) Adaptações e uma idéia insana C) Unicamente puro, o roteiro é livre ou D) Todas as alternativas anteriores. Como eu gostei dos três filmes e quero infernizar vocês, digo, convencê-los do mesmo, vamos falar mais um tanto do assunto (e receber o cachê de convidado do Pizurk).
Por partes, ao estilo Jack: Primeiro que Snyder é um diretor de adaptações, na maior parte do tempo, e isso é inegável. Enquanto comentamos Sucker Punch, canetas assinam contratos para Superman: The Man of Steel (Título provisório que DEVE ficar), que ele dirigirá. Antes disso, seu salto em Hollywood foi com o maior festival de homens semi-nus se esfregando desde que a parada gay começou em Sâo Paulo. Ali, Snyder provou que poderia tranquilamente adaptar o visual de um quadrinho, desde que ele tivesse dois elementos principais: Ação e personagens fortes.

Em todos os momentos que há Gerard Butler em cena como o Rei Leônidas, a câmera de Snyder é forte, os diálogos são fluídos e os traços puídos de Frank Miller (Em sua melhor fase como desenhista, na minha opinião) fazem um sentido danado em carne e osso. E aí acusam o diretor de ser um artista centrado na pancadaria. Mas cascalho, não é o que trata a HQ? Alguém já leu Cavaleiro das Trevas, do Miller? É a mesma coisa, um roteiro forte encaixado em trocentos quadros de Batman distribuindo porrada. A HQ foi parar na tela e de uma forma mais decente do que A Liga Extraordinária, um trabalho de Moore que realmente não recebeu o respeito devido. Aliás, deixem-me aproveitar para o próximo tópico.
Adaptar, para quem não conhece o sentido da palavra, não é transcrever. Você não irá ao cinema para ver quadro a quadro de um quadrinho ou o texto de um livro com a dublagem de algum ator. Você verá as idéias, o núcleo de uma obra, transformadas em outra, que pode aí sim ser boa ou ruim. Uma adaptação ruim é a Liga que falei antes, é Dragonball Evolution, atrocidades que mantém parte da estética, mas limam todo o resto do trabalho. Descaracterização de personagem é adaptação ruim. Perda do sentido do original é uma adaptação ruim. Orra, colocar Tom Sawyer, um herói AMERICANO, em um filme sobre heróis INGLESES é uma adaptação ruim! Sean Connery, sofra de caganeira neste instante, por favor?
Já Watchmen não é uma adaptação ruim. Ele só não é a HQ. Aí eu pergunto: Qual a diferença entre Senhor dos Anéis e suas liberdades criativas e Watchmen e suas liberdades criativas? O primeiro é ovacionado, a Trilogia vende pra caramba e já fazem uns seis anos que nada de novo é produzido (Ignorem O Hobbit até que apareça algo DE VERDADE do filme). E o segundo é um filme que se vende algum DVD ainda hoje é porque alguém acabou de achar em promoção. “Ah, MIMIMI, Moore é inadaptável, MIMIMI”. Enfie o choro no bolso e vá assistir Do Inferno, sim? Por mais que o inglês maluco (Que vive falando mal de adaptação, mas vendeu MILHÕES com Lost Girls, uma pornochanchada visual com heroínas da literatura) diga que não vale sua HQ, é uma boa adaptação. E tem V.

O caso é que Snyder não gravou TUDO que tinha na HQ. Nem perto disso, ele precisou selecionar o que colocar em tela. E mudou o final. Aquele único evento no final. Ok, isso mudou o sentido da coisa? Diminuiu o discurso do vilão? Fez a insanidade de Rorscharch menor? Por favor, né? E então vamos a Sucker Punch, o filme polêmico que fez nascer este texto. Eu gostei, e vou deixar claro que, se não é perfeito, não é pela lição de moral que tem nos minutos que fecham a película. Não, não achei tosco.
Sucker Punch é o primeiro videoclipe gigantesco que Snyder fez desde que alçou ao cargo de diretor de Hollywood. Foi dada a ele a liberdade criativa necessária para que ele pudesse colocar o que quisesse em um filme e ele resolveu colocar TUDO, simplesmente TUDO que tinha em mente desde 300. Estão lá as garotas em roupas que deixam homens loucos, o dicurso da falsa moralidade, os vários caminhos da mente, o mundo empírico e principalmente, a ação por ação. A grande crítica é que Sucker Punch não tem roteiro, e eu digo que se você me soltou essa, é porque acha que roteiro de verdade tem que colocar em diálogos tudo que pode ser traduzido em imagens.

Vamos lá: Babydoll perde a mãe e o padastro tenta acabar com ela para ficar com a grana da família. Num acidente, ela é considerada maluquinha da silva e colocada em um sanatório para que sofra lobotomia e nunca mais possa acusar ninguém de nada. Como ela tem pouco tempo, ela planeja escapar, mas devido aos traumas recentes, ela cria um mundo imaginário onde pode se esconder e pelo qual veremos tudo que ela faz. Em nenhum momento do filme alguém aparecerá explicando o que ela fez de verdade. Nope, é preciso degustar as cenas no Cabaré e nas fantasias de Babydoll para compreender o que realmente aconteceu.
Isso não é não ter roteiro, isso é não degustar a trama para que o espectador absorva a papa na boquinha, como mamãe passarinho faz com os filhotes. Ok, em Onze Homens e um Segredo (E por consequência, os outros dois filmes da série. Brrrr…), é um efeito muito legal vermos o que se passou nas cochias, mas vamos lá! Nunca combinaria com Sucker Punch. Eu saí do cinema com várias idéias sobre tudo que não vi, e o mais divertido foi discutir isso com os outros que foram comigo. Qual o destino das outras garotas? Quais os motivos do vilão? O que terá acontecido com o padastro? Estou entregando pseudo-spoilers? Nenhuma dessas perguntas terá resposta. Pelo menos eu espero que o Snyder não se amedronte e comece a responder, porque aí sim eu criticarei o que ele faz. E sim, eu espero ansiosamente por Superman… Porque eu gosto de sofrer com adaptações de quadrinhos, beleza?

Texto de estreia desse quadro, feito pelo Black, do Sake Com Sal, que é o irmão mais velho [E otaku] do Bacon. Qualquer divergência, xingue-o nos comentários, ou vá lá no bl… Site dele.
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